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Como (não) nasceu a agenda poética Translação 2021?

Um relato sobre vontades e processos artísticos que não nascem. Ou nascem?


...fazer a agenda se tornou uma escolha de: vamos nos forçar ainda mais neste ano? E escolhemos pelo não.

O tempo mudou. 2020 modificou o modo como lidamos com o tempo, fomos submetidas e submetidos ao enfrentamento de uma pandemia. Estamos em 2021, mas ainda vivemos sob o terror do coronavírus. Estamos com corpos marcados pelas escolhas sociopolíticas feitas pelos (des)governos no meio desse caos sanitário.



Translação, uma agenda poética

O inverno neva? No outono as folhas caem? Começamos a adentrar na disputa de imaginário. Como é o nosso inverno? Muito mais seco, do que frio. Já percebeu que o ano tem dois verões? O do começo do ano e o do final.

Antes de mais nada, diz o paulo, o que é a agenda Translação, escreve isso. Bem, a Translação é uma agenda anual poética, feita a partir de um encontro.


A história é assim, um dia um amigo nosso, Rodrigo, pediu uma agenda com ilustrações de poetas, uma agenda pequena para carregar e que ele pudesse usar na escola enquanto dava suas aulas. Bem, a gente topou fazer e criamos de acordo com as pessoas poetas que ele escolheu e ficamos felizes demais com o resultado. E logo em seguida pensamos, e se fizermos uma versão com poetas que escolhermos, nossa primeira versão contou com Sérgio Vaz, Eliane Potiguara, Graça Graúna, Conceição Evaristo, Hilda Hilst, Patativa do Assaré, Solano Trindade… Para a gente foi uma alegria, mas nos deparamos com a questão: será que podemos vender essa agenda? Afinal existem os direitos autorais e junto a cada ilustração colocamos um trecho de um poema de cada artista. Na dúvida, decidimos produzir apenas 20 agendas e vender/presentear pessoas próximas. Era 2016, e decidimos que nos organizaríamos para fazer uma versão 2017 com poetas amigas e amigos para evitar esse tipo de questão.



Bem, a história é longa, mas a de 2017 não floresceu, como organizar vendas e distribuir valores? Mesmo assim, a lembrança das primeiras agendas persistiram e a vontade de fazer alguma outra. Foi quando, em 2018, nasceu a Dois verões, uma agenda com poemas relacionados às estações e a nossas sensações vivendo as estações daqui de São Paulo/SP, hemisfério sul. O inverno neva? No outono as folhas caem? Começamos a adentrar na disputa de imaginário. Como é o nosso inverno? Muito mais seco, do que frio. Já percebeu que o ano tem dois verões? O do começo do ano e o do final.


Em 2019, seguimos a busca dessas percepções e criamos a Transbordar: secas y chuvas. Caminhando junto ao bordado, com seus Sonhos de chuva, aquilo que queremos junto de nós em abundância; y suas Podas secas, aquilo que já precisa partir para uma nova semeadura acontecer.

Por fim, reconstruímos nossos calendários com a chegada de 2020, com a Transbordar: pedras y rios. Não mais um grande grade de datas, mas sim um longo caminho de pedras, uma a uma, dentro do imenso rio da vida. Quais águas vieram dos anos anteriores? Quais águas vão seguir pros anos vindouros?

quando não damos conta e algo nasce diferente I

Nas incertezas de como contar o tempo em 2021, as águas secaram. Ficamos sem tônus para fazer a agenda 2021 acontecer. Sem conseguir lidar com prazos, sem conseguir encarar a necessidade de vender. Buscando fortalecer nosso trabalho com as oficinas virtuais, fazer a agenda se tornou uma escolha de: vamos nos forçar ainda mais neste ano? E escolhemos pelo não.


Ficamos na tristeza de não ver nascer algo, como aconteceu com as agendas anteriores. Mas fomos presenteades, logo em seguida, com os encontros da #pausaemovimento, lives com amigas e amigos artistas no instagram do mínimo diário que estávamos preparando desde o fim de 2020.


Mas nisso ficamos no “i agora?” vamos ficar também sem agendas? Cada um do coletivo deu um jeito. Construí minha agenda usando o calendário mensal construído pela Thamata Barbosa, da Em.feito, nossa amiga e parceira do coletivo. Quem quiser conhecer e baixar, é só clicar aqui. E estudando encadernação, fiz a costura utilizando pela primeira vez a estrutura crossed structure binding, criada pelo italiano Carmencho Arregui. Já paulo também pegou o calendário mensal e criou a sua junto aos fios de suas tecelagens.

quando não damos conta e algo nasce diferente II

“Num tempo tão rodeado de telas, por que manter uma agenda de papel? Com a agenda poética Translação transbordei em rios e pedras, os dias passaram em semanas de sete pedrinhas. E 2020 foi um ano muito difícil, espaço de muitas ausências: encontros, trabalhos, parcerias, viagens, movimentos. Enxerguei essas lacunas em minhas anotações, uma grande pausa, tantas dúvidas e saudades. Com mínimo diário nos aprofundamos em olhar pra nossa caminhada, revemos processos e fizemos oficinas virtuais. Ao fim do ano estávamos exaustos, acabamos não gestando a agenda de 2021 e encontramos outros meios de anotar nossos sonhos de chuva. Comecei o ano com um planner, que é um livro planejador organizado em semanas e que traz dicas de rituais de saúde, dicas de alimentação e exercícios, além de um espaço para anotações de sonhos. Manter a constância das escritas é um desafio, quando folheio as agendas de anos passados me alegro em ver registros, rabiscos, palavras, listas de coisas para fazer, pensamentos. Seguimos caminhando em dias de fluxos e respiros.” - ana lima 24 de fevereiro de 2021

Fica a questão: pode algo outro nascer mesmo quando algo não nasce?


vinicius


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