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Gesto de fazer, uma oficina de encadernação e histórias

Ou, o que podem os gestos nos ensinar?

"O sujeito que se abre ao mundo e aos outros inaugura com seu gesto a relação dialógica em que se confirma como inquietação e curiosidade, como inconclusão em permanente movimento na história." Paulo Freire, em Pedagogia da autonomia

Gesto de fazer é uma oficina para construir livros e histórias. Seu processo parte da produção de um caderno de inspiração cartonera ao mesmo tempo em que inventamos uma história coletiva. Para isso propomos a feitura de um gesto que inspire a criação desse livro em branco. Mas, afinal o que é um gesto?


O que é um gesto?

A gente pode seguir por muitas trilhas para definir algo, um modo possível e ir num dicionário. A palavra gesto para o Wikcionário, por exemplo, significa: "movimento de uma parte do corpo que expressa um significado".

Podemos também ouvir o que outras pessoas pensam sobre aquilo. Fizemos isso em nosso instagram perguntando: O que é um gesto? E por lá, recebemos as seguintes respostas:

  • modo de expressar que carrega infinitas memórias;

  • um ato permeado de intenção;

  • uma qualidade que nunca fomos educados mas que quando cai a ficha é capaz de mudar a forma de r.existir;

  • movimento em direção à... você, ao outro, ao mundo! gesto é vibração, é fluxo, é vida que pulsa!;

  • gestos são pulsos, que podem ser pausa, interrupção do automatismo, do predeterminado;

  • gestos que interrompem, que desviam para uma abertura ao não definido, não denominado, do porvir;

  • postura, movimento, atitude. um modo de se colocar diante das coisas, da vida, dos seres;

  • movimento genuíno.

Gesto nos parece então algo relacionado ao dizer, ao expressar, ao dar intenção, ao ensinar, mas não de modo solto, e sim de um modo ligado ao corpo, ao movimento, ao criar códigos a partir da repetição de um movimento determinado.


O gesto de fazer

Quando criamos a oficina Gesto de fazer nos perguntamos: Quais gestos compõem os nossos fazeres? Como podemos criar a partir deles? Essas perguntas nos alegram ao perceber que cada feitura é atravessada por diversas composições de nosso corpo. Óbvio que isso não é algo tão "poético", os mesmos gestos que podem libertar algumas corpas e corpos, são os gestos que oprimem outros e outras. O corpo é um espaço político, criado ao longo de todo o nosso processo de existência, seja por aprendizado, repetição, condições e relações culturais.

Compartilhamos aqui um texto que lemos ao inicio de cada oficina:

"O gesto de fazer. O gesto de fazer. O gesto de fazer? É a mão que faz o gesto? Ou é o gesto que faz a mão? É o gesto uma história? É a história uma mão? História que dá o fio, dá o sentido. Fazemos o gesto pra ver se ele nos faz? Fazemos o gesto entre histórias.

Gesto, gesto, gesto, gesta!!! Gestar! Gestando. Hoje, gestando!

E pra chegar ao gesto, pra inventar um novo, é preciso descalçar as botas! Tocar no chão o pé. Ver o mundo sem olhos, ver a vida de solas. Num redemoinho os olhos abaixam, se tornam inquieto. O pé passa a caçar tudo do chão, vira mão que é pé e nem é. Não importa a frente, nem objetivos, nem o futurão. Apenas o muro, o furo, a fresta. O furo nas frestas do muro. Planta baixinha arroxeada. Brilho de algo perdido. Uma criança aqui vivendo.

Este começo já é meio. E o meio de nossos gestos eram livros. Os livros nascem de onde? E se for do simples, do cotidiano, do banal? Livros nascidos do sim! Cada um faz um, e no um do outro está o outro do um. Faz um teu nosso? É encadernar; é criar; é ouvir; é falar; é inventar um meio... Um meio? Meio pra quê? Ai só vivendo!

Vive os encontros dos fios! Tece e rompe fios, compartilhe memórias! Inventando meios. Aceitando erros. Falando outras vozes. Ouvindo outras vozes. Virando o olho. Qual é o teu verso? Qual é o teu gesto?

Fica o fazer: O que pode uma costura? O que pode um livro? O que pode uma história? O que pode o novo novo dentro do mesmo outro? Este é o convite para um gesto."

Sentimos o gesto como possibilidade de gestar algo. O gesto como força que nos inspira a criar e quem sabe ser movimento de mudança do que é preciso. Afinal, podem os gestos nos ensinar?

Gestos no processo educativo

Como já dissemos, os gestos em nosso processo educativo têm grande importância, eles nos mostram além das palavras: vivências, dificuldades, facilidades e um enfim de vozes que habitam cada um.

Em Pedagogia da Autonomia, Paulo Freire narra uma experiência em sua vida marcada pelo gesto de um professor.

"Às vezes, mal se imagina o que pode passar a representar na vida de um aluno um simples gesto do professor. O que pode um gesto aparentemente insignificante valer como força formadora ou como contribuição à assunção do educando por si mesmo. Nunca me esqueço, na história já longa de minha memória, de um desses gestos de professor que tive na adolescência remota. Gesto cuja significação mais profunda talvez tenha passado despercebida por ele, o professor, e que teve importante influência sobre mim. Estava sendo, então, um adolescente inseguro, vendo-me como um corpo anguloso e feio, percebendo-me menos capaz do que os outros, fortemente incerto de minhas possibilidades. Era muito mais mal-humorado que apaziguado com a vida. Facilmente me eriçava. Qualquer consideração feita por um colega rico da classe já me parecia o chamamento à atenção de minhas fragilidades, de minha insegurança.

O professor trouxera de casa os nossos trabalhos escolares e, chamando-nos um a um, devolvia-os com o seu ajuizamento. Em certo momento me chama e, olhando ou re-olhando o meu texto, sem dizer palavra, balança a cabeça numa demonstração de respeito e de consideração. O gesto do professor valeu mais do que a própria nota dez que atribuiu à minha redação. O gesto do professor me trazia uma confiança ainda obviamente desconfiada de que era possível trabalhar e produzir. De que era possível confiar em mim, mas que seria tão errado confiar além dos limites quanto errado estava sendo não confiar. A melhor prova da importância daquele gesto é que dele falo agora como se tivesse sido testemunhado hoje. E faz, na verdade, muito tempo que ele ocorreu... "

Compartilhamos esse trecho que para nós é bastante significado de como os gestos nos atravessam e comunicam possibilidades. E para encerrar o texto, a gente deixa a pergunta: Quais gestos te marcaram a vida? Existe algum? Comenta aqui e vamos espalhar alguns gestos.

vinicius

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