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Chá de boldo, ou quando as histórias nascem de encontros

"A planta estava ali, no jardim de sua mãe, mas ela não sabia seu nome e nem se podia ou não comê-la. [...] Decidiu, então, se arriscar e comer as pétalas."

Como nascem as histórias? Fico me perguntando isso e imagino que você também pode se perguntar. Essa pergunta está aqui, não para caçar respostas mas sim para nos movimentar. A gente no mínimo diário, acredita na possibilidade das histórias nascerem de encontros coletivos.


Compartilhamos "Chá de boldo", uma história nascida coletivamente na oficina Gesto de fazer, um processo no qual trabalhamos encadernação, construção de um diário e o exercício de histórias.


Chá de boldo

A mãe era uma jardineira de mão cheia, tudo que tocava crescia e florescia. As vizinhas e vizinhos sempre que precisavam pediam sua ajuda: para plantar ou cuidar de alguma planta doente; para saber também qual erva era boa para tal e tal coisa. A filha observava cada gesto da mãe, até sabia alguns nomes e tinha gosto em comer algumas flores que a mãe lhe dava.


– Essa vermelha fechadinha pode comer, tem ela amarela também.

– Essa aqui até que pode, mas tem de refogar primeiro.

– Essa é amarga. Tem de saber fazer, se não é veneno. Tem de tomar cuidado pra não confundir com aquela outra que pode!


A filha a ouvir e não ouvir, o jardim tinha cheiros e cores tantas. As plantas pareciam lhe chamar, como se contassem segredos. Percebia aos poucos cada um de seus silenciosos convites. Um dia ouviu o chamado de uma pequeníssima flor lilás muito cheirosa. A planta estava ali, no jardim de sua mãe, mas ela não sabia seu nome e nem se podia ou não comê-la. Quis olhar de perto, depois já quis pegar e quando percebeu provou com a ponta da língua. A flor parecia doce. Decidiu, então, se arriscar e comer as pétalas.


– Menina, larga isso! É flor de bruxo!


Já era tarde, sentiu uma certa dormência nas pernas e caiu. A mãe foi acudi-la. Mas quando se aproximou, a filha se levantou e sem mais controlar seus passos, saiu ligeira a caminhar para longe.


Andava, andava e mesmo cansada continuava a andar. Suas pernas seguiam chão, sem que ela mais as controlasse. Pensava em como desfazer aquilo. Seria feitiço ou o quê? Foi quando quase sem mais reconhecer aquelas ruas, parou. Suas pernas decidiram descansar um pouco. Estava ali fincada num canto de mundo, quando em sua frente passou uma enorme gata.


– Ei, me ajuda aqui!


Se sentiu boba ao perceber falar com o bicho. Mas em seguida ouviu um miado. Sem ter escolhas, abriu bem os ouvidos. Ela queria entender a língua da gata. Entre ronronares, balanços da cauda e um acarinhar entre as pernas, a gata parecia dizer algo.


– A pele!?


Ouviu outro miado. As pernas voltaram a andar. Ela se afastava ainda mais rápido de onde morava. Pensava no conselho da gata e sentia seu corpo cansado. Com as mãos, tocou o rosto, sua pele, e quando notou as pernas pareciam se acalmar, passo a passo mais lentas até pararem. Estava ali fincada outra vez, sentia um suor grosso em sua testa. Não conseguia dar os próximos passos.


Então, choveu. E ela parada. Então, ventou. E ela imóvel. Seu corpo tremia, sua pele queimava. E ela sem saber o que fazer, resistia. Ouviu um miado. Era a gata? Mas ninguém aparecia. Ouviu de novo o som, mas já não sabia. Era mesmo um miado? Ela não sabia de onde vinha o som. O corpo se arrepiou. Sentiu que precisava andar, mas não queria correr pra longe. Um rugido? Sentiu o vento em sua nuca. Fechou os olhos, tocou novamente seu rosto e quando viu, se pôs a dançar. Uma dança que lembrava a chuva, uma dança que ventava. Ela se movia, ela encantava.

A dança tinha gosto de flores, das plantas que a mãe lhe dava pra beber. Um passo amargo; um pulo picante; um requebrar doce. Sentia no corpo essas outras sensações. Um cheiro forte de café surgiu e com ele uma lembrança. Lembrou da avó e de seus ensinamentos sobre os cheiros, as terras, os temperos. Tudo que havia passado pra mãe. Sentiu algo lhe puxar, um sensação de respiro, algo lhe ligava a terra. Raízes. Havia chegado num lugar que nunca tinha estado. Memória de vó, essa menina sorria os ensinamentos dela.


Seus olhos se abriram e pela janela passarinhos voavam. O feitiço se desfez? Ela acordava, estava em casa, a mãe apreensiva ao seu lado.


– Graças, minha filha! Você voltou! Aquela planta é danada, dá sonho na gente. Mas nem todo mundo consegue voltar. Que força você tem!


– Com o tanto de chá que você fez essa menina tomar! - a voz vinha da cozinha, era a avó que se chegava pra junto das duas, com garrafa de café e tudo. – Minha filha deixe de moleza. Trouxe um café quentinho. Pode se ajeitar aí e vê de contar pra gente esse seu sonho.


A filha pegou a xícara e começou a falar sobre tudo que sonhou, ouviu e dançou com a natureza.

Como a história nasceu


A história-encontro Chá de boldo, nasceu em 24 de outubro de 2020, em uma oficina virtual do mínimo diário. Na proposta da Gesto de fazer, temos um momento no qual usamos um baralho de cartas para criarmos coletivamente histórias. E no encontro de origem dessa história estavam com a gente Raiane Ramirez, Rafaela Aguiar, Liana Miranda, Vanessa Garcia Sanches y Leo Bruch. É então nesse jogo entre participantes da oficina e nós dó coletivo, que a história ganha corpo e narrativa a partir dos risos, propostas, desafios e memórias que cada carta e voz dispara como imagem.


No encontro, paulo fez parte da roda de história, enquanto ana e vinicius anotavam a história para depois podemos transcriá-la. E esse processo de transcriação é feito entre nós buscando imagens e memórias, olhando caminhos das histórias e permitindo que as águas da narrativa tomem espaço e participem da nossa ideia de construção de gesto e versos. A chá de boldo foi transcriada por vinicius e paulo.


Por fim, decidimos criar uma cópia diagramada, impressa e encadernada da história. Essa cópia é única e suas fotos ilustram este texto.

Pergunto então, como você tem criado suas histórias? Já participou de algum movimento em que as histórias nascem do encontro, do jogo entre as pessoas? Se já fez algo assim, compartilhe com a gente, sempre temos vontade de conhecer os processos de narrativa que estão a acontecer nesse aqui e agora que vivemos. E caso queira experimentar esse exercício de criar histórias junto participe de nossas oficinas virtuais.


vinicius

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Para RECEBER UM AVISO das vagas para nossas oficinas, acesse: http://minimodiario.com.br/meavisa

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